terça-feira, 13 de julho de 2010

sexta-feira, 2 de julho de 2010

3ª Mostra Luta!

A Mostra Luta! é uma mostra nacional de vídeos, fotografias, poemas e quadrinhos que exibe e debate as lutas travadas contra a exploração e a opressão capitalista. Organizada pelo Coletivo de Comunicadores Populares, a 3ª Mostra Luta! ocorrerá em Campinas, e de forma itinerante em outras cidades do Brasil, abrindo novamente espaço para a expressão de todas e todos que não têm acesso aos meios de difusão de suas lutas e ideais. A Mostra Luta! é mais um instrumento para romper o silêncio imposto pela grande mídia, concentrada nas mãos de uma minoria, e para difundir aquilo que não passa na TV, nos jornais, nas revistas: nossas lutas contra a exploração, a miséria, a concentração de renda e terra, contra todas as formas de opressão, contra o monopólio dos meios de comunicação e a mercantilizaçã o da cultura e da arte, contra a progressiva perda de direitos e a criminalização dos que buscam lutar por esses direitos.Inscrições abertas de 17 de maio a 15 de julhopelo site www.mostraluta. org

quinta-feira, 1 de julho de 2010

UM DIA MÁGICO



Noite alta e como diz o poeta, céu risonho, estrelas cintilantes enfeitavam o breu total, o infinito, um frio de outono se fazia presente, dava pra suportar no momento. Não pude dormir nessa noite, meu olhar fixava constelações, procurando algo no desconhecido. Minha inquietação começou depois de uma mensagem de celular passada pelo parceiro Willy.
Salve mano, o junino vai hoje!
Não podia me descuidar e perder o espetáculo, mais ou menos umas 02h45min da madrugada me preparei, tirei a câmera fotográfica do carregador e guardei na mochila, coloquei blusa e touca, fiz um lanche de pão com queijo e mortadela acompanhados com suco, me dei um salve na coroa e sai.
Na quebrada varias pessoas estavam na rua fazendo suas baladinhas, o agito não para, fazia uma oração pedindo proteção na caminhada, verifiquei se os documentos se encontravam na carteira, tudo certo, mentalizava passar despercebido se alguma viatura piasse, que Deus me tornasse invisível na calada da noite.
Abençoado pela coroa cheguei à casa do Willy, o mesmo, no meio da rua soltava fumaça pela boca sem ao menos fumar, era o frio mesmo. Nos cumprimentamos, estava tudo beleza, só um percalço que o afligia demais, mas logo se resolveria, faltava o transporte da carga que tínhamos que deslocar.
A nossa ansiedade era visível, a lua bem lá no alto era cúmplice do sereno que umedecia nossas vestes e os tetos dos carros, as 3h330m o seu radio toca!
PRI-PRI!!
_ E ai tudo certo por aí, e o Fanti já chegou?
PRI-PRI!
_Sim, tá aqui, tá faltando o cara da saveiro, que vem lá de Guarulhos!
PRI-PRI!
_ Pode crer, já estamos aqui, qualquer coisa da um toque. Finalizou Zebu.
Era a outra parte da galera, que iria conosco, já tinha se organizado. Iríamos pro interior, município e Suzano, mais precisamente a zona rural de Suzano, local bem afastado. Ficamos batendo um papo pra ver se espantava a ansiedade e o frio que estava fazendo, queria um café bem quente, sem chance. De repente o radio!
PRI-PRI!
_ E aí Willy tô chegando! Pri-pri.
_Firmeza! Mano onde é que você tá? Pri-pri.
_ Tô perto da Vila Prudente, vindo de Guarulhos! Pri-pri.
_ Sumemo, estaremos lá no Zebu te esperando!
PRI-PRI!
Um pouco de alivio na tensão, era o sinal verde pra nossa realização, agora já até sorriamos de leve, Willy chamou sua esposa entramos no carro e fomos pra casa do Zebu, que por sinal não era muito longe. Encontramos a rapaziada toda alerta e nos cumprimentamos.
_É hoje mano a noite está perfeita, nada pode estragar! Falei em voz alta e todos concordaram.
Uns 10 minutos depois os manos da saveiro chegaram, trazendo alegria a mais pra galera, carregamos as coisas que faltavam pois os outros carros estavam cheios de gente e de coisas. Desejamos sorte entre a gente e todos entraram nos carros batendo as portas quase que na mesma hora, muito louco.
Seguimos em direção à Avenida do Estado, rumo ao grande ABC, um comboio de 5 carros formava o bonde. No interior do veiculo estávamos todos calados, apreensivos pra falar a verdade, eu ia seguindo com o olhar os outros carros, Willy atento no volante, do seu lado sua esposa calada, do meu o Cleylton com o radio na mão esperava alguma chamada dos parceiros.
Num determinado momento, já em Mauá uma viatura emparelhou com a gente, giroflex aceso olhavam pra gente, pra piorar resolveram entrar atrás da saveiro que estava com o carregamento, nós ficamos atrás na migué, com um medo da porra.
_Fudeu! Disse o Willy.
_ Vai firme, não diminui não! Alertou o Cleylton.
Eu fiquei só observando, rezando pra dar tudo certo. O radio do Cleylton chamou e ele apaziguou os caras que estavam nos carros da frente dizendo que estava tudo suave no momento. Uns 2 quilômetros depois as autoridades desviaram sua rota. O alivio foi geral, todos nós rimos de felicidade.
_ “Sai, deus é mais, vai morrer pra lá zica”. Completei com frase dos Racionais.
Foi só seguir em frente e pisar fundo quando menos esperamos o asfalto agora tinha virado estrada de terra. Chegamos ao local indicado ainda de noite, o frio era mais intenso ainda, a sensação térmica devia ser de uns 3 graus, um lugar bem no meio do mato, quase que Serra do Mar, uma neblina rasteira deixava o clima mais úmido ainda, o mato estava encharcado por causa do sereno, molhando os tênis e as barras das calças.
Sem marcar bobeiras fomos descarregando os carros, forrando o chão com lona preta e colocando as coisas em cima, sem marcar bobeira fomos agilizando os preparativos, uns foram estivando os cabrestos, outros foram amarrando os paus-flechas da antena, na seqüência fomos anexando a bandeira à antena.
O principal veio depois, o causador de todo esse rebuliço, trazido com todo cuidado, embrulhado numa lona preta também, colocado ao chão, abrimos o pacote e aos poucos foi sendo desembrulhado, ali mesmo sua beleza foi revelada, um mosaico de cores e tons de encantar os olhos.
_ Prepara a boca! Um falou.
_ Deixa que eu cuido da bucha! Outro completou.
Tudo nos conformes parecia mentira, Zebu veio trazendo o botijão com maçarico, ao acendê-lo o filete de papel de seda foi sendo inflado, espanado com a ajuda da galera, segurado com todo apreço do mundo pra ser danificado. O ar quente do maçarico foi dando forma, seu tamanho era proporcional a sua beleza, as cores passavam de 10, vários tons diferentes, a coisa mais linda. Quando menos e esperou ele ficou de pé, um pouco bambo, pois uma brisa leve soprava levando a neblina rasteira pra longe, os primeiros raios de sol começavam a surgir, revelando a silhueta do nosso sonho, um balão multicolorido, todo taquiado.
Ia tomando sua verdadeira forma, 2 anos de trabalho intenso em cima de uam bancada, cortando e colando papel, estava ali realizado, encantando a todos involuntariamente. Um truff de 12 metros de altura, o mesmo modelo daqueles que carregam pessoas, balonismo, uma homenagem seria feita.
A todo gás ele já tinha vontade própria, sua força queria impor sua subida ao céu azul, a tocha já tinha sido acesa, as guias, o cordão umbilical do balão, estavam em seua devidos lugares e nas mãos de quem ia guiar o balão, em questão de minutos ele ganharia a liberdade, liberar as guia seria cortar o cordão umbilical de nosso menino, como um filho iria ganhar o mundo, ou o céu, o infinito, o desconhecido e ingrato nunca mais voltaria, mesmo assim não ficaríamos tristes, pois seria por vontade própria.
Éramos de volta todos crianças, sorridentes como na primeira de vez que tínhamos visto um balão, uma leveza de espírito, um sentimento bom foi tomando o peito. Aos poucos o balão foi era guiado, ganhando altura, tinha gente que já estava chorando, a bandeira sendo erguida com a força do mesmo. Tensão! Não queria mais subir, parecia perder força de arranque, alguns gritos eram emitidos, o medo de por tudo a perder era demais, minutos de espera, o fogo ia consumindo a bucha do balão e com uma autonomia completa, arrancou de uma vez só levando a bandeira enorme, saindo de nossas mãos pra nunca mais.
O conjunto da obra foi deslumbrante, as mais variadas formas de manifestações de alegria foram ouvidas, a fotografia da mulher do Willy foi reproduzida na bandeira, uma cópia perfeita, seu sorriso era marcado com lagrimas de alegria, sinceramente foi uma homenagem mais do que perfeita, há tempos não tinha vivido uma emoção tão forte, pura prova de carinho, amor, dedicação e arte.
O balão se foi, mas deixou seu legado, o amor à arte pela arte, por que fizemos e não recebemos nada em troca, a não ser o prazer de um sonho realizado, é a paixão cada vez mais forte e inexplicável, um abraço à todos que compareceram neste dia, por que foi um dia mágico
Fanti Mano Humilde

quarta-feira, 30 de junho de 2010

BONECA DE PANO

01 hora e 15 minutos, acabo de vir da Cooperifa. Ingresso no cômodo da casa que já foi lavanderia e um dia deixou de ser lavanderia para ser quartinho de estudos e, mais recentemente, virou meu quarto, como um fragmento de madeira vira um porto seguro para um náufrago. Saio do colete salva vidas que é o bar do Zé Batidão e me alojo em outro aqui mesmo, na própria e imensa periferia da Zona Sul de Sampa, meu lugar no mundo, mesmo que ele não queira.
Uma coleção de livros do Monteiro Lobato ficava na prateleira de uma dessas paredes para onde olho agora. Um dia, ainda menina, sete ou oito anos de idade, senti uma vontade desesperada de me esconder. Fui fugindo, sorrateira, de mansinho, pelos cantos da casa, atravessei com meio sorriso os gracejos que os adultos fazem com caçulas, abri a porta (essa mesma porta) e antes de fechar, espiei se ninguém tinha me seguido. Daí pude então desabar. Desde cedo, adotei uma postura de manter firme o peito erguido, o cenho fechado, a voz endurecida, um ar seguro e determinado. Não sei com quem ou onde aprendi isso, mas é um dispositivo, um mecanismo que trago aqui dentro, um acreditar que, se fraquejar, desapareço. Hoje, tenho cá pra mim que essa atitude se assemelha muito com outra que temos que é a de correr esconder bagunças dentro dos armários e debaixo dos tapetes quando uma visita inesperada chega só para descobrir todas nossas fragilidades.
Recordo de brotar uma enxurrada de água dos meus olhos e do susto que levei com a contradição trazida pelo sentimento bom que foi nascendo minutos depois da angústia e junto com as lágrimas. Só depois descobri que esse sentir leva o nome de fé na vida, que é o que nos faz olhar ao redor e buscar uma saída fora e dentro para não arrefecer, porque viver é impossível na tristeza.
Então, percebi em minha frente os livros e o silêncio misterioso que fizeram como se quisessem dizer coisas muito nossas.
Lembro da vontade de aventura secreta e cheia de novidades duvidosas que aquela parede me provocou e a pergunta que me veio ainda hoje é uma das que mais gosto: “por que não?”
Repasso que subi numa cadeira bamba, mas que se manteve firme como quem diz “ trepa aí menina, estou aqui te segurando!”
Subi na mesinha de estudos de pés velhos, contrastando com meus pés inexperientes, cheios da curiosidade dos iniciantes. Foi aí que ferrei o dedão na bic destampada e continuei subindo como se subisse montanha e, pontinha dos pés, puxei “O casamento de Emília.”
Era um desses livros grandes de capa grossa, com ilustrações muito bem feitas, compradas do tiozinho que vendia enciclopédias pelo Ademar a perder de vista e com o qual meus pais mantinham uma conta, igual tinham no bazar Tucano, pra compra de material escolar, porque queriam que a gente tivesse estudos.
Nesse dia eu tinha um ímpeto e um medo que até hoje me vem e sei que não passará, porque é a dúvida de existir que não passa. Talvez, ainda me lembre desse dia porque foi o prenúncio de que isso iria acontecer muitas e muitas e muitas vezes depois...
Emília me seduziu atrevidamente. Dei de mim ao livro segurando seu corpo com a mão esquerda e com a direita percorri capa e contra capa. Nós nos abrimos, não na primeira página, mas bem pela metade, assim como fazemos com as pessoas que não acabaram de nascer, mas que estão nascendo na vida uma das outras.
E daí por diante, me sentei e comecei a ler. Quando me dei conta, tinha anoitecido e eu estava calma, preenchida de um tipo de sentimento diferente do sentimento que me tinha feito entrar naquele lugar. Eu estava modificada. Então, fechei o livro, enchi meu peito de ar e olhei pra parede. Com o juízo de Emília em mim, concluí que aquela tristeza foi grande bobagem, abri a porta, corri até minha mãe e abracei suas pernas.
Sem que tivéssemos falado nada, a gente se entendeu. O que nunca vou saber e não foi necessário, foi o que se passou com ela enquanto eu alcançava o livro comprado a prestações.
Quisera que meu mundo ainda fosse o de Emília e que o final feliz fosse abraçar as pernas de alguém que está na cozinha para serenar minhas angústias do peito.
Quisera ser mais disciplinada e menos sonhadora. Saber talhar palavras de corpo presente para que elas não me amofinassem tanto quando estou sozinha querendo irromper de qualquer maneira. E quisera então, ao não conseguir mais prendê-las, conseguir maneira diferente de não conduzi-las num caminho de metáforas, posto que ainda é um tipo de cárcere e, além disso, dos mais piegas. No entanto, no fundo, no fim das contas, o que nos importa mesmo (a mim e as minhas palavras) não é a forma, mas a natureza do abraço.
Quisera eu ainda ser tão pequena e tão grande que, se soubesse, jamais teria encolhido minhas utopias diante de tanta barbárie.


Alessandra Ferros